terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Mais que tudo.

O prédio estava desabando. Do lado de fora, pessoas choravam. Do lado de dentro, duas pessoas. Uma garota e um garoto. Ex-namorados, haviam brigado e nunca mais se falaram.

Ela ainda o amava.

Sentaram bem juntos para se proteger do frio que se abatia no lugar. Se lembraram dos velhos tempos. Ela não iria ceder.

Ela ainda o amava.

A garota olhava pra ele, com seus frios olhos azuis, seus cabelos negros, suas orelhas cheias de piercings. Ele olhava para a garota, lábios cor de cereja, olhos verde-esmeralda e pele bronzeada, além de magníficos cabelos loiro-resplandescente.

Ela ainda o amava.

A garota resolveu agir. Iria dizer que o amava, que fora tudo um mal entendido, que eles deveriam permanecer juntos. Mas não, ela não iria se dar por vencida. Ele haveria de pedir desculpas.

Ela ainda o amava.

Ele parecia distante, frio. Pensativo, reflexivo. Não demonstrava amar a garota tanto assim.

Ela ainda o amava.

Ele a abraçou. Ela era arrogante, não iria ceder tão fácil. Tentou o empurrar pra longe, mas ele a deitou no chão e se jogou por cima dela.

A construção desabou. Abraçados, eles foram atingidos por entulho. Abraçados, eles se olharam. Abraçados, eles morreram.

Ela ainda o amava.

A garota acordou com a luz do dia ofuscando sua visão. Uma passagem à sua frente a guiava para a liberdade. E o garoto jazia morto. A abraçara pra impedir que os entulhos a atingissem.

Ele a amava mais que tudo.

Primavera.

Ela olhou tristemente para o retrato do rapaz. Olhos claros, cabelos loiros. Ombros largos e sorriso acanhado. Richard, Richard.

- Filho da puta, por que foi embora?!

E atirou o retrato do outro lado da sala. Arrependeu-se, era sua única lembrança do namorado morto na guerra. Morrera como um herói, salvando todos do seu batalhão. Morrera torturado, morrera para não contar onde eles estavam. Dera a vida por seus companheiros. Herói de guerra.

A cena mais triste da vida dela. O caixão do seu amado, do seu herói, do seu soldado sendo carregado por seus companheiros, todos de preto. Alguém segurando sua mão durante o enterro. Todos de luto. Mas todos vivos. Deus, não era justo que ele morresse, não era! Eles iam casar, ter filhos, uma casa e um cachorro. Iam lavar o carro juntos, tomar vinho em frente à lareira e fazer amor em uma noite perfeita de inverno. Inverno, essa era a palavra para definir o coração da pobre menina naquele momento. Frio, insensível, duro. Inverno. Inferno. Interno. Sofrimento disfarçado com grosseria. Apenas amor.

Meses se passaram. Ela não conseguia ver como iria amar novamente. Ela sofria todos os dias. Ele prometera um mundo de felicidade pra ela, ele seria um marido perfeito. E a abandonara. O inverno permanecia no seu coração.

Dias depois do que seria o 29° aniversário dele, alguém batia à porta. Era um dos que haviam estado na guerra com Richard, seu nome era Remy. Alto, forte, olhos castanhos e cabelos da mesma cor. Barba por fazer e um sorriso acanhado, o mesmo sorriso de Richard. Viera entregar os pertences dele.

Naquele momento toda fúria e ódio e sofrimento vieram à tona. Ela queria bater naquele homem, ele era culpado, ele matou seu namorado, ele fizera a guerra, não importava. E quanto mais ela batia nele, mais ela se sentia melhor. Seu peitoral forte agüentava bem as pancadas fracas da mulher chorosa e desamparada. Quando ela finalmente parou, Remy simplesmente a abraçou. Ela retribuiu o abraço, e ele falou:

- Eu te entendo. Ele era meu melhor amigo, nunca me deixou desistir. Ele lutou como um herói e morreu como um herói. Chorar não vai trazê-lo de volta. Se acalme.

Sua voz grave era reconfortante. Seu perfume, inebriante. A segurança que ele passava era boa demais. Ela o conhecia, fora o homem que segurara sua mão durante o enterro de Richard.

Finalmente a primavera chegara para acabar com o inverno gelado no coração daquela pobre garota. O amor florescera mais uma vez.

O silêncio que precede o final

A porta abriu. Uma bela moça entrou. O rapaz disse:

- Sente-se aqui ao meu lado.

- Tudo bem.

- Eu ainda te amo sabia?

- Ainda? Então você um dia deixou de me amar? Seu pilantrinha!

Os dois riram. O jovem casal, tinham no máximo 17 anos cada um, estava sentado confortavelmente em um sofá posto às pressas no terraço do edifício mais alto de Curitiba. O céu estava de uma cor vermelho-sangue. Um espetáculo raro.

- Que horas vai ser?

- A televisão falou que seria lá pelas seis e meia da manhã.

Ela olhou no relógio de pulso dele.

- É quase cinco e vinte amor!

- Numa hora dessas, o que mais importa o tempo? Só me interessa ficar com você.

E eles se abraçaram. E assim ficaram, observando o comportamento anômalo do sol, o desespero das aves, ouvindo os gritos de desespero das pessoas lá embaixo. Era até engraçado, eles tão sossegados observando tudo enquanto os outros se desesperavam.

- Sabe, poderíamos ter vivido tantas coisas juntos... casar, ter filhos...

- Fernanda, você sabe que eu te amo demais, e nós teríamos feito tudo isso não fosse pelo...

E não conseguiu terminar a frase.

Eles nem se deram conta, mas faltavam quarenta segundos para as seis e meia. O sol tingia o horizonte de sangue, e as nuvens pareciam fantasmas bailando pra lá e pra cá.

- Amor, faltam dez segundos! E agora? O que fazemos?

- Aprecie o silêncio.

Eles deram as mãos e se beijaram.

E num instante, como que por mágica, tudo ficou silencioso. Um momento de respeito, um minuto de silêncio, uma eternidade de angústia.

E o meteoro X-297.8 – Alfa atingiu o Planeta Terra, dizimando todo e qualquer vestígio de vida.

Aquele era o silêncio que precedia o final.



Dedicado à Lajila e Kevin, os psicopatas mais apaixonados do mundo.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Antagônico

E no escuro, seja meu claro
E na tristeza, serei tua alegria
No frio, peço que me esquente
Pois na tua noite serei dia
Quando for prosa, quero verso
Pra nossa vida ser poesia
Letras tortas em sentidos curvos
Quero ser o bálsamo pra curar tua dor
E mil vezes falar te amo
E mil vezes te chamar de amor

domingo, 16 de janeiro de 2011

I'm yours.

Eu te olhei. Encarei aqueles sérios olhos esverdeados nos quais eu adorava me perder toda vez que conversávamos. Olhei seu rosto pálido, sua boca ensaiando um sorriso. Seu nariz reto, seus cabelos lisos como seda, negros como a noite, longos como o luar. Luar, era a palavra que definia a cena, nós dois acampando, uma fogueira na nossa frente. A lua refletida em um lago vítreo de serenidade e paz. Os grilos cricrilando, aquele friozinho bom, frio de juntar namorado. A madeira estalando dentro do círculo de pedras redondas, o fogo bruxuleante. Nossa timidez era um empecilho, nenhum queria dar o primeiro passo. Nossos amigos haviam dormido, e nossa insônia nos trouxera até ali. Sentados lado a lado, a fumaça subindo à um céu estrelado. E, como que por mágica, nossas mãos se tocaram. Foi apenas um toque leve, mas que fez nossos dedos se entrelaçarem, nossos lábios se colarem e nossas almas serem para sempre apenas uma.

E daquele momento em diante eu sabia, eu era seu.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

adeus.

Se sete almas eu tivesse
no âmago do meu sofrimento
Eu quem sabe não jogaria
Ao chão meu sentimento

Quatro ventos enrolaram
tuas faces pálidas e sorrisos
teus olhos, cor de amor
fazem nada de meus olhos lisos

te amei mais do que tudo
recebi menos que nada
teu sorriso me acusava
e minha lágrima era advogada

testemunha do sofrimento
júri da minha dor
meu bem, por ti morri
suicídio agonizante do amor

um tiro certeiro no peito
naquele que me fez tanto sofrer
uma bala trespassa o vidro da alma
vivo enquanto queria morrer

só queria tê-la ao meu lado
enquanto sangro minha partida
segurar tuas mãos enquanto digo
adeus meu amor, minha vida.

Esperança (?)

Por que? Por que ter esperança? desejar um mundo melhor? Achar que apesar do ser humano ser repulsivamente nojento, ele um dia vai ver que tá errado? Isso não é otimismo, é perda de tempo. Crer que de uma hora pra outra a natureza vai se refazer, os homens viverão em paz, as pessoas vão se amar e viveremos todos em uma eterna alegria. Isso é utopia, é sonho, é inocência demais. O mundo nunca será assim. E então, vale a pena ter esperança?

Vale sim. Enquanto tiver amor, vale a pena aguentar um mundo de hipocrisia. Um mundo de sujeira. Um mundo de pessoas. O amor é, acima de tudo, o porto seguro para qualquer um que queira ter um pouquinho de esperança.

Não é sentimentalismo exacerbado, não é idealismo. É vontade de mostrar ao mundo que apesar de tudo, o amor ainda existe, o amor puro e verdadeiro, o amor de irmãos, amor de amigos, amor de um casal apaixonado, amor de amar. É difícil ter esperança na humanidade quando tudo de ruim acontece, mas se não consegue esperar muito das pessoas, espere tudo do amor.

Esperança não é igual a amor. Esperança idealiza, amor realiza.